domingo, 9 de novembro de 2008

Apenas um corpo

Respira. Um corpo horizontal,
tangível, respira.
Um corpo nu, divino,
respira, ondula, infatigável.

Amorosamente toco o que resta dos deuses.
As mãos seguem a inclinação
De peito e tremem,
pesadas de desejo.

Um rio inteiro aguarda.
Aguarda um relâmpago,
Um raio de sol,
Outro corpo.

Se encosto o ouvido à sua nudez,
uma música sobe,
ergue-se do sangue,
prolonga outra música.

Um novo corpo nasce,
nasce dessa música que não cessa,
desse bosque rumoroso de luz,
debaixo de meu corpo desvelado.


Eugénio de Andrade

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